MUSICAS DA HELENA

domingo, 23 de setembro de 2012

A calçada


_ Só trabalho em casa de madame, diz o pedreiro.
 _ O senhor acha que não sou madame? Não é porque moramos em bairros distantes da capital, que não nos consideramos madames também, digo.
_ Então a senhora me desculpe, madame!
Noto um certo ar de ironia no tom de sua voz. Esse é um dos preconceitos contra os moradores da Baixada e outros bairros periféricos. Quem mora no centro do Rio de Janeiro, são chamados de doutores, madames, às vezes nem o são.
Sob um sol escaldante, observo os dois.
_ Precisa quebrar tudo? pergunto.
_ Precisa, tá tudo oco, responde o pedreiro entre os dentes, já irritado com minha presença.
Orgulhosa, olho as pedras que vão ser colocadas na calçada. Pedras caras, lindíssimas. Ficará um trabalho bonito depois de pronto, imagino.
_ O senhor  está começando pelo lado errado _digo meio sem graça.
_ A senhora por acaso é arquiteta?  Engulo seco e respondo rispidamente:
_ Não sou, mas entendo um pouco de construção civil.
O seu ajudante chega e pede-me um pouco de algodão para colocar nas mãos. Olho penalizada para o pobre coitado; as suas mãos estão  calejadas de tanto quebrar pedras.
Entro, apanho o algodão e volto a fiscalizar o trabalho.
Durante à noite, nem durmo direito pensando na bobagem que fiz contratando o suposto pedreiro. Disseram-me ser ele um ótimo profissional, vai confiar nos outros!
Na  manhã seguinte, acordo com o coração acelerado e corro para ver a bagunça que fizeram na minha calçada.
Passa um vizinho _ que pedreiro a senhora arrumou, heim! _ fico quieta, envergonhada.
Passa outro, diz outro comentário malicioso _ esse serviço começou pelo lado errado!
Respondo grosseiramente:
_ Sei, e o que você tem a ver com isso? Vá cuidar da sua vida!
Resolvo repentinamente: sabe de uma coisa? Arrumarei um ajudante e eu mesma terminarei essa calçada.
Assim que os dois chegam, mando-os sumirem da minha frente.
Começo a colocar as pedras, junto com meu genro, que nunca pegou numa colher de pedreiro.
Como ouço piadinhas!
Segue as ordens da engenheira. _ diz um.
Nossa você está queimadinha, pode até dizer que foi à praia! _ fala outro.
Esse é o problema de bairro pequeno e pobre, falta mão de obra especializada. Os que são, vão trabalhar para as madames e doutores. Às vezes nem recebem, enfrentam condução superlotada, acordam de madrugada, levam marmita. Enfrentam tudo isso, como se não pudéssemos pagá-los. No fundo penso que sentem-se desqualificados em trabalhar no próprio bairro.
Depois de dois dias exaustivos de trabalho, enfim a calçada fica pronta. Olho deslumbrada minha obra-prima. Deveria ser arquiteta _ imagino eu, feliz da vida.
_Está mais magra desde a última vez que a vi, diz uma amiga no restaurante, onde fomos comemorar nossa viagem à Europa.
_Está elegante, bronzeada, qual o segredo? pergunta outra.
Respondo com altivez:
_ Minha filha, nem imagina _ vai fazer calçada!

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