Quando eu tinha uns sete ou oito anos, pensava que a vida terminava aos 50. Via-me velha, acabada e pronta para morrer. Para dizer a verdade, vinham-me pensamentos obscuros, de que, quando chegasse aos 50, me suicidaria. Não aguentaria me ver velha, enrugada, seios caídos, cabelos brancos. Queria viver enquanto estivesse bonita. Esses eram os meus pensamentos quando criança.
Os pais tem uma forte influência sobre os filhos, e, a minha me influenciou muito: não no modo de pensar, me tornei o oposto dela. Mas a sua garra, persistência e determinação, herdei.
Lembro-me dela no quintal da casa com um martelo e pedaços de arames. Sentava no chão e amassava os arames em uma pedra até formar uns grampos compridos. Era com isso que prendia seus cabelos longos, com um coque, no alto da cabeça.
A última vez que a vi fazendo seus grampos ela falava para mim: "estes são os últimos que eu faço, vai dar até eu morrer". Dava-me uma dor tão profunda, que toda as noites antes de dormir eu rezava pedindo a Deus para que meu pai e minha mãe não morresse. Esse hábito levei para a vida adulta, até que eles se foram.
Minha mãe vivia sempre pedindo a Deus que a levasse, pois estava cansada de viver e de sofrer. Não imaginava ela que eu sofria com isso, meus irmãos também, certamente.
Teve uma vida dura sofrida, apanhava de chicote do meu avô. Teve 10 filhos, eu fui a nona filha. Cansada da miséria da roça, veio para o Rio de Janeiro, tentar uma vida melhor. Conseguiu, mesmo ela não tendo consciência disso.
Ficava noites adentro estudando para conseguir uma vaga de professora primária, até conseguir.
Não havia luz elétrica, lampião era caro, usávamos lamparinas. A casa fedia a querosene. Na manhã seguinte acordávamos com o nariz todo preto por dentro.
Não posso dizer que tive uma infância infeliz, pois não tive, mesmo com o fantasma da morte sempre me assombrando, ainda mais que conheci minha mãe velha. Não tive lembranças de meus pais jovens. Com oito anos, minha mãe já tinha 50.
Na escola, perguntavam-me se ela era minha avó. Mas eu a amava muito, e tudo que sou hoje agradeço aos seus ensinamentos.
Outro hábito que ela tinha além dos grampos, era cheirar rapé. Comprava fumo de rolo e os colocava numa tampa de panela, em cima das brasas do fogão à lenha. Não tínhamos fogão à gás. Só mais tarde, quando começou a lecionar na Prefeitura, comprou um. Geladeira? Nem sabia que existia. Quando estava muito quente, colocávamos água dentro de uma garrafa, amarrávamos numa corda e jogávamos dentro do poço para refrescar.
As boas recordações ficaram por conta das histórias que ela contava. Sentava aos pés da nossa cama e começava. Eu adorava. Suas histórias não tinham fim. Cada dia era um capítulo, e duravam semanas até começar outra.
Não tínhamos livros de histórias, ela não lia, tinha cada uma na sua memória. Depois que crescemos, contava-as para os netos, principalmente aos meus filhos, que já chegavam à sua casa: "vó conta uma história?"
Quando não eram histórias fantásticas ou maravilhosas, eram histórias da sua vida, de assombrações e das coisas que aconteceram lá no Fundão, em Viçosa.
Sabia política como ninguém, Os presidentes antigos conheço todas as suas histórias, através dela. Não esqueço até hoje da história de um certo presidente, que depois de deposto, escondeu-se lá no Fundão. Ela contava e recontava...
Seu maior sonho era ter uma filha professora, e conseguiu. Não era o meu sonho, mas nunca quis decepcioná-la, e segui seus passos. Não me arrependi.
Os anos se passaram, os grampos foram jogados fora e minha mãe cortou seus cabelos curtinhos, dava menos trabalho _ dizia ela.
Quanto ao rapé, abandonou, Aprendeu a fumar cigarros com os filhos, depois de velha. Foi-se embora de repente, Não deu trabalho a ninguém. Seu cigarro ficou queimando na ponta de um móvel , sua janta pronta na cozinha.
Quanto ao medo de ficar velha, passou, pois comecei a viver depois dos 50 . Acho-me mais bonita agora, do que quando jovem. O medo de envelhecer enraizou-se tanto em mim que me recuso a sentir -me velha. Aprendi a superar todos os meus limites, Curto cada minuto da minha vida.
Não penso mais na morte. Sei que irei um dia, mas enquanto isso vou sonhando e realizando todos os sonhos possíveis. E quanto às suas histórias, vou repassando para os meus netos.
Os grampos sumiram com o tempo, mas ficaram como uma bela recordação dos momentos felizes da minha infância.