MUSICAS DA HELENA

domingo, 4 de novembro de 2012

Clarice

Desde criança, Clarice sabia que era diferente das outras pessoas. Ouvia sua mãe sempre dizer para os outros: "Essa menina não perturba ninguém, fica calada, senta num canto qualquer e brinca sozinha, não procura a companhia das outras crianças". Clarice ouvia, mas na sua inocência, ainda não tinha a compreensão do que acontecia ao ser redor.
Assim, ao completar sete anos, tudo começou a ganhar sentido. Sentia-se uma criança estranha, continuava calada, tinha poucos amigos, nem com os irmãos brincava muito, preferia ficar no seu mundinho à parte. Não era doente, só ela mesmo sabia o que se passava em seu interior. Não revelava seu segredo para ninguém. Sabia que ninguém a compreenderia.
À noite era um tormento para Clarice.  Apagavam-se as luzes da casa, ela cobria a cabeça, sentia medo. Medo do que ela sonhava, do que ela via. Sua única reação era fazer xixi na cama, e continuou, até ficar mocinha. Pensava que seus sonhos e visões acabariam com o tempo, mas isso não aconteceu. E o mais aterrorizante para ela, foi quando via que seus sonhos se tornavam realidade.
Às vezes falava para a sua mãe - "vai acontecer isso". Mas nunca revelou que sonhara ou vira o acontecimento nitidamente. Só rezava, rezava... Não adiantava muito.
Previa coisas boas e ruins, Conseguia ler através do olhar do outro, por isso afastava-se das pessoas.
A mãe percebendo que tudo dito por Clarice, acontecia, começou a brigar e a mandava calar a boca, pois dizia ser praga que ela estava rogando. Mas ela sabia que não era praga, só queria evitar o pior.
O tempo passou, Clarice casou-se, seguiu sua vida cuidando da casa, dos filhos e trabalhando fora. Seu marido foi o único que soube e acreditou no seu dom.
No trabalho, era considerada estranha, antipática, até de maluca fora chamada. Conquistou poucos amigos ao longo dos anos, e, estes poucos bastam para ela, pois sabe identificar o coração das pessoas pelos olhos. Quem a conhece bem, e os que tem oportunidade de conversar com ela, sabe que Clarice é uma boa pessoa, tem o coração enorme, incapaz de fazer mal a uma mosca.
Dar uma de vidente, nem tão cedo. Sua última visão causou-lhe maior transtorno. Foi tentar contar a um amigo que lhe aconteceria um acidente, saiu-se mal. Foi chamada de bruxa, ele simplesmente disse: "xô", mandando-a sumir de sua vida.
Agora, está o dito amigo com uma perna quebrada, enclausurado dentro de casa, e o pior, sozinho.
Clarice só dorme com a luz acesa, como se isso bastasse para afastar os seus sonhos e as coisas que somente ela vê.

 

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