Aprendi na escola que um rio é um curso d'água que corre para o mar. Mas um rio é mais do que isso; fui conhecer um verdadeiramente, quando mudei-me para aquela cidade. Compreendi então, que ele também esconde mistérios, tristezas e alegrias.
Nasce lá em cima do morro e se espicha preguiçosamente rumo ao centro da cidade, cortando-a ao meio, com casas construídas em suas margens e morrendo naquele mar de indescritível beleza. Alguns tinham suas janelas dos fundos, abrindo diretamente para o rio, onde as crianças se debruçavam para brincar de pescaria, ou mesmo jogar barquinhos de papel.
Morávamos também à beira dele, só que de frente. Uma de suas margens servia- nos como calçada Era o espaço onde as crianças brincavam, pois o prédio não tinha play.
Em tempos de tempestades, ficava da janela com meus filhos, observando a fúria de sua correnteza. Era lixo de toda espécie e bananeiras, certamente arrancadas pelo caminho percorrido.
Seu nome, até acontecer uma quase tragédia e uma morte, não sabia o porquê de o chamarem de "Rio do Choro". Pode ter outra origem, mas para mim, passou a ser o rio das lamentações. Inúmeras pessoas devem ter chorado muito pelas vidas que foram levadas por ele.
Poucas pessoas sabem, mas a minha vida poderia também ter sido tragada pelas suas águas lamacentas.
Tudo aconteceu muito rápido. Era uma tarde de domingo, e a cidade nestes dias ficava praticamente vazia. As crianças brincavam na calçada, e como citei anteriormente, a calçada era uma de suas margens, havia somente uma mureta aberta para cercá-lo.
De repente, ouvimos uma gritaria, eu e minha sobrinha corremos para fora. Deparamos com um menino vizinho se debatendo em suas águas. Devia ter mais ou menos uns cinco anos, estava se afogando. Não pensei em mais nada, mesmo porque, nessa hora o que mais queremos é salvar uma vida. Éramos as únicas adultas no local. Minha sobrinha só sabia gritar, as outras crianças assistiam a tudo, apavoradas.
Mais que depressa, pulei no rio. Embora parecesse raso, eu não contava com a lama existente no fundo. Segurei o garoto, porém, meus pés foram se afundando, como se estivesse pisando em areia movediça.
Meus filhos gritavam muito, até que dois moradores do terceiro andar acordaram e correram para ver o que estava acontecendo. Um pulou e ficou preso na lama, o outro fez a mesma coisa, também ficou agarrado, nenhum de nós três sabíamos nadar.
Já sentia a água lamacenta chegar a minha boca, quando por acaso ia passando um pescador, que vendo a cena, atirou-se no rio e nos salvou.
Senti a morte iminente. Não tenho conhecimento de alguém que já teve a sensação de estar chegando o seu fim. Mas posso descrever a minha: não se sente apavoramento, nosso cérebro parece que para de funcionar, não sentia nada, só ouvia gritos. Medo, não senti.
Alguns meses depois, tive que ir a minha cidade natal, deixar meus filhos com os avós para poder trabalhar Nessa época, estava sem empregada, sem sobrinha. Era minha única alternativa.
Quando retornei à cidade caía uma enorme tromba d'água. A ponte de uma das mais importantes ruas, já estava encoberta pelas águas.
No prédio em que morava a água estava cobrindo os primeiros degraus e quase entrando em minha casa, eu morava no térreo. Fui procurar a chave, tinha a esquecido na casa de minha mãe. Tive então, de ficar esperando meu marido voltar do trabalho, para poder entrar. Já era noitinha.
Fiquei ali, nos degraus que ainda não tinham sido tomados pela inundação, enquanto observava a natureza se manifestar. É uma cena assustadora, misturado com um friozinho na barriga.
Ali, parada, em estado de pavor absoluto, assisti à uma cena que nunca me sairá da memória: no meio dos troncos de árvores que eram arrastados, avistei duas mãos levantadas. Era um homem sendo levado pela correnteza.
Seu corpo foi achado nas areias da praia, no dia seguinte.
Isso aconteceu há 30 anos. Mudei-me. Voltei à cidade para visitar, mas nunca tive a coragem de rever o "Rio do Choro". Achava melhor deixá-lo para lá, no seu cantinho, escondendo seus mistérios.

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