_Ah, moça, aqui a gente reza pra não ficar doente! - diz o rapaz da recepção. Um jovem bem franzino e com os olhos arregalados de susto, correndo para pegar uma lanterna.
Mais assustada estava eu, procurando por um médico para tirar uma mosca que entrara dentro do meu ouvido, enquanto dormia, às duas horas da madrugada.
_ Só tem uma maternidade no centrinho, diz o rapaz.
Subi correndo as escadas e bati na porta do quarto aonde estavam meu filho e minha nora. Meu filho, meio sonolento, veio atender. "Entrou uma mosca no meu ouvido"! Quase gritei.
_Calma mãe, não é nada! Vá dormir. E o barulho do bater de asas continuava... Quem poderia dormir com um barulho que subia até o cérebro? E se não fosse uma mosca? E se fosse um desses insetos que sobrevoam sobre as areias da praia?
Estávamos hospedados em uma pousada de frente para a praia. O barulho do mar transmitia uma paz tão repousante que dormi de janela aberta.
Muito condescentemente, meu filho e minha nora vestiram-se e levaram-me a tal maternidade, já que eu estava resoluta a não querer nenhum bicho me ensurdecendo.
Assim que paramos o carro em frente a tal maternidade, havia um policial e um homem de branco, que supostamente, pensei ser um médico. A policial veio logo perguntando o que estava acontecendo.
_Entrou um bicho no meu ouvido!
_Ah! A senhora veio a pessoa certa! E conduziu-me para dentro. O suposto médico pediu-me para deitar numa maca e jogou um líquido dentro do meu ouvido.
Fechei os olhos e senti uma dor terrível. Dei um pulo da maca e veio ele de novo com a pinça, dizendo: " preciso tirar o bicho, a senhora tem que ficar quieta!" Deitei de novo, a dor agora foi mais cotundente.
"Vai furar meu tímpano"! Foi então que olhei para o seu jaleco e li: auxiliar de enfermagem. Nada contra auxiliar, mas sem a presença de um médico!
E para completar, sem uma lanterna.
"Não tem lanterna aqui?" Perguntei. Ele pediu o celular do meu filho para iluminar. Foi aí que entendi o porquê das palavras do recepcionista do hotel.
Voltei a realidade e percebi: estávamos no Nordeste, em Maragogi, Alagoas. Praias paradisíacas, repleta de turistas, mas de um povo sofredor, esquecido por todos.
O tal auxiliar, assim que pegou o celular do meu filho, pediu para eu sentar numa cadeira. Pegou uma seringa e injetou o líquido no meu ouvido. Injetou uma, duas , na terceira vez, gritei: _ Para que vou desmaiar! Estou tonta. Parecia uma seção de tortura.
"O senhor pode verificar minha pressão, por favor? " Ele pegou meu braço direito e eu pedi: "no esquerdo." Ainda bem, estava normal.
Resignada, desisti do bicho, que a essa altura já estaria morto e fomos embora.
O resultado deste episódio: Ainda sinto dores no ouvido e sirvo de chacotas para meus filhos.até hoje.
As palavras do jovem rapaz não me saem da cabeça:
"Só tem uma maternidade aqui, no centrinho. Casos mais graves, eles dão um papel e temos que ir para Maceió ou Recife." E eu preocupada com uma suposta mosca no meu ouvido!

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