MUSICAS DA HELENA

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

História de cupido

Dora é uma maravilha de pessoa. Enquanto existem uns que invejam a felicidade dos outros, ela quer que todos encontrem a felicidade. E felicidade para Dora resume-se em uma única coisa: cada um deve ter um amor na vida.
E foi assim, incomodada com a solidão das amigas, e com a minha, principalmente, resolve bancar o cupido.
Muito bem casada, por sinal, parece ter encontrado sua alma-gêmea. Coisa raríssima de acontecer, uma entre mil, pode-se dizer. Vive em eterna lua-de-mel.
Não podia ver ninguém sozinho, logo queria encontrar uma solução para a vida solitária em que o outro se encontrava, assim ela pensava. Não importava o que a pessoa definia como solidão. Para Dora, solidão significava não ter um namorado, ou mesmo uma pessoa do outro sexo, para sair, trocar idéias e por aí em diante.
Por mais que eu dissesse que não me sentia sozinha. Que adorava minha liberdade, que fugia de compromissos e estava vivenciando o meu "eu" verdadeiro no momento, ela se inconformava com a minha suposta solidão.
Certo dia, em uma de suas visitas rotineiras à minha casa, começou a indagar-me:
_ A senhora não tem nenhum amigo que esteja sozinho e queira uma namorada?
Pensei, pensei. Então lembrei-me de um papo de um colega do dia anterior:
_ Preciso de uma namorada. Alguém, por favor, me arrume uma namorada! A conversa não era diretamente comigo, mas estava perto e ouvi.
_ Acho que conheço um, respondi, meio ressabiada.
_ Mas para quem?
_ Sabe, tenho uma amiga... Coitada, está tão sozinha! Quem sabe se der uma ajudazinha?
_ Olha Dora. Não gosto de participar disso, mas verei o que posso fazer. Assim que estiver com ele, peço-lhe o telefone e passo para sua amiga.
Assim o fiz. Poderia surgir um lindo romance, quem sabe? Que nada! Foi um desastre total, recheado de decepções.
Eu que compactuei com tudo, servi de mediadora, ficava envergonhada cada vez que o encontrava. E ainda me sentia culpada por nada ter dado certo. Sempre me perguntava:
_ Que doideira! Como fui entrar nessa?
Confesso que não esperava um desfecho tão dramático e frustrante. A flecha do cupido desta vez errou o alvo.
Cheguei até a esquecer o fato, quando o cupido, ou seja, Dora, voltou-se para mim:
_ A senhora ainda é tão jovem, bonita. Precisa arrumar alguém! Já sei!
_ Pelo amor de Deus! Para com isso. Não estou a fim de ter ninguém, não é bem assim que funcionam essas coisas do coração. A escolha de um companheiro é um processo complexo. É inerentemente imprevisível.
Mas ela nem queria saber dos meus argumentos, só não queria ver ninguém só.
Dora estava realmente falando sério:" tenho um amigo que acabou de separar-se, vou armar um esquema."
Não é que realmente ela pôs em prática seu esquema. Quando menos esperava, recebo uma mensagem de uma pessoa de quem nunca ouvira falar: " Essas crianças, aprontam cada uma"! " Mas é preocupação por você"
Imaginem como fiquei: pasma e queda. Senti-me ridícula e envergonhada. Era como se eu soubesse de tudo e estivesse de pleno acordo.
Mas felizmente, a confusão foi desfeita  e ainda recebi um convite para fazer uma escalada.
Agradeci, dizendo que não gostava de coisas desse tipo. Mal ele sabia que estava tentada a aceitar o convite. Não por ele, pois não estava interessada, mas pela fantástica aventura. Amarro-me em trilhas e até escalada, acho uma aventura e tanto!
_ Cupido, você errou de novo o seu alvo! Confabulei.
Só sei que agora, depois de disparar várias flechas e errar o alvo, Dora desistiu de bancar o cupido, por enquanto.
Mas somos grata a ela por se preocupar e trazer tanta alegria com esses pequenos gestos. É uma alma tão generosa _ preocupada com a solidão alheia. Está sempre entusiasmada. O entusiasmo é tudo, porque traz confiança para fazer a diferença no nosso dia-a-dia.
Quanto a mim, ganhei mais um amigo, a outra, infelizmente, um inimigo.
Essa história de bancar o cupido, nem sempre dá certo!










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