MUSICAS DA HELENA

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O morro dos enforcados


Assim que chegamos a  pousada, o recepcionista  foi logo nos dando os detalhes completo da cidade: "subindo esta rua vocês chegam a praça principal, onde ficou exposta a cabeça de Tiradentes; aquele morro ali em frente era onde enforcavam os escravos e jogavam os corpos lá de cima".
_ Que recepção um tanto funesta! comentei com meu filho.
Justamente a janela do meu quarto dava de frente para o tal morro. Fiquei de tal forma hipnotizada pela paisagem, esquecendo completamente do meu objetivo, que era rever a  arquitetura barroca, os minerais e recordar os bons tempos em que ensinava aos meus alunos as poesias lindas do Arcadismo.
"Marília de Dirceu" _  emociono-me até hoje ao relembrar-me desse poema.
Fiquei horas debruçada na janela, imaginando a cena horripilante dos escravos sendo enforcados. Meu pensamento voltava à séculos atrás. Quanto esse povo sofreu!
Expatriados, tirados à força de suas famílias, deixando para sempre a sua terra natal. Tudo para satisfazer a ganância e a ambição da coroa portuguesa.
Hoje, 20 de novembro, não é um feriado comum, somente para comemorações, e sim, para refletirmos o quanto os africanos escravizados contribuíram para a construção da identidade nacional.
Inegavelmente, temos que admitir e voltar à atenção para a herança cultural que os desterrados trouxeram consigo, e toda a influência na história da colonização brasileira.
Ali, naquela cidade construída com o suor e sangue, estão conservados monumentos históricos grandiosos, mas nos dão uma infinita tristeza em saber o preço pago por cada pedra colocada em suas ruas; em sua arquitetura.
Eu, esqueço Tomaz Antônio Gonzaga, e deixo aqui, um poema paradigmático do moçambicano, José Craveirinha.

                                     "Quero ser Tambor"

Tambor está velho de gritar
ó velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

E nem flor nascida no mato do desespero.
Nem rio correndo para o mar do desespero.
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero.
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra.
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra.
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra!

Eu!
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sangrar no batuque do meu povo.
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Ó velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor  ecoando a canção da força e da vida
só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até á consumação da grande festa do batuque!

Oh! velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor! 

*Mafalala - arredores de Maputo
*zagaia - lança curta

Maria Helena
20 de novembro de 2012  

Um comentário:

  1. Ótima crônica,tenho curiosidade e sempre qui conhecer a cidade de Ouro Preto. Parabéns pelo blog!

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