MUSICAS DA HELENA

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

História sem pé e sem cabeça

- Vó! -Você já viu casa sem muro?
- Já.  - Aqui não tem casa sem muro porque entra ladrão, fantasma e assombração - mas 
eu já morei numa casa sem muro - respondi.
Essa conversa surgiu num dia daqueles em que meu neto dormiu comigo.  Ele gostava de ouvir minhas histórias antigas, principalmente de assombrações.
Meu neto ouvia atenciosamente cada palavra minha, seus olhos arregalados demonstravam surpresa e queria saber mais detalhes sobre a casa sem muro.
- Vó, conta logo!
Eu continuei a história.
-  A casa em que eu morava quando criança não tinha muro. E da maioria dos vizinhos, também não.
-  Mas vocês não tinham medo ? - perguntou
Eu respondi que  naquele tempo poucas pessoas tinham dinheiro para construir a casa, quanto mais um muro.
- Devia ser bom - podia brincar na rua à vontade.
- É, podíamos. Tinha muita brincadeira interessante: amarelinha, bola de gude, pular corda, pique...
Ele queria ouvir cada detalhe das brincadeiras, e eu  contava com entusiasmo, relembrando a minha infância.
-  Vocês viam televisão?
- Naquele tempo não tinha luz elétrica, íamos dormir cedo - eu disse.
-  Que chato!
- Chato, nada! Era muito bom, o pior era à meia - noite.
- Por que? - ele perguntou com olhos mais arregalados ainda.
-  Porque em frente a minha casa tinha uma amendoeira, meus pais diziam que à meia-noite aparecia o Saci-Pererê, procurando o seu cachimbo. Certa noite eu perdi o sono, de repente ouvi um assobio muito estranho, parecia que vinha da amendoeira.
- Estou ficando com medo, disse - agarrando-se a mim.
-  Medo, eu tive - continuei  -enrolei-me  nas cobertas, cobri a cabeça e fiquei ouvindo ele assobiar.
- Podia ter levantado e ver como ele era.
- Eu não, fiquei quietinha debaixo das cobertas.
Eu contei a ele que no dia seguinte corri para a amendoeira para ver se achava o cachimbo do Saci.
- E achou? - ele queria saber.
Eu achei nada! -  respondi.
- Amanhã eu conto mais, agora nós estamos cansados, vamos dormir.

Ele deu um pulo da cama e disse convicto:
- Eu sabia que existiam fantasma, mula-sem-cabeça e vampiro, não te falei?!  Por isso que todas as casas agora tem muro!

Tempos depois eu descobri que o apito era de um guarda-noturno que passava na rua.
Eu nunca contei esse detalhe ao meu neto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário