MUSICAS DA HELENA

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Dia da saudade

Meu pai

"Sentimos saudades de certos momentos da nossa vida e de certas pessoas que passaram por ela", escreveu Drummond.  Saudade pode ser um sentimento doce ou um mal necessário, que nos faz juntar todos pedaços de nossa vida, ajudar no nosso crescimento e acarretar mudanças para que possamos trilhar nosso caminho.
Sentimos saudades dos amigos que ficaram pelo caminho, dos momentos tristes, dos momentos alegres, dos que já partiram, dos amores que tivemos.
Sinto saudades de uma pessoa que ficou pouco tempo em minha vida, mas aprendi muito com ela, inclusive a pegar numa vassoura direito.  Apesar de usar poucas palavras com os filhos e de jamais ter visto um sorriso em seu rosto, seus atos e seu trabalho marcaram-me para sempre.
Todos o conheciam como "José Calixto",  o carpinteiro, até hoje desconheço o motivo de seu apelido.
Minha última lembrança dele, antes de adoecer, foi vê-lo caminhando para casa, carregando uma tábua de seis metros nas costas. Sentia pena, mas tinha maior orgulho dele.
Após a sua doença, lembro-me nitidamente, ele debruçado na janela, espreitando a rua, como se estivesse sentindo uma saudade imensa dos tempos passados e que não voltariam jamais.
Esse era meu pai. Aposentou-se cedo, devido a uma surdez e ter ficado cego de um olho. Recebia sua aposentadoria do INPS, e completava com biscates.
 O carpinteiro mais procurado do bairro. Era um artista em sua profissão, tudo que fazia era perfeito. Essa habilidade herdei dele. Não posso ver um pedaço de madeira, logo imagino o que posso criar com ela. 
Lembro-me quando criança, acompanhava-o na sua oficina de carpintaria. Ficava eu lá, calada, observando-o  a trabalhar e esperando a hora em que me chamava para tirar-lhe uma farpa de madeira dos dedos. Só eu fazia isto.
Encantava-me ficar catando os galões que sobravam dos caixões que ele fazia. Isso mesmo! Meu pai fazia também os caixões de quem morria no bairro. Caixão roxo, já sabia que era de adulto; brancos, de alguma criança. Não me dava medo. Não tinha ainda a consciência formada sobre a morte.
Apesar de falar pouco, havia os dias em que se soltava, principalmente nas noites de lua cheia.
Reuníamos em um banco, em frente a casa e ficávamos lhe ouvindo contar seus causos mineiros.  Fazia preciosas descrição do Fundão, não só da terra, mas também dos seus sabores. Saudades que ele sentia do Fundão, em Viçosa, sua terra natal.
Ficava inebriada ouvindo-o, revivia as cenas, como se estivesse presente.
Um dia eu o vi alegre, tentava aprender a andar de bicicleta, com mais de 50 anos. Não conseguiu, mas ríamos muito.
Também o vi triste, acho que fui a única a vê-lo chorar. Foi quando morreu a minha avó. Fiquei triste também naquele dia. Não tinha dinheiro para viajar e dar o último adeus à sua mãe. Ficava sempre calada, mas compreendia meu pai como ninguém, e o amava muito.
No dia do meu casamento, meu pai surpreendeu-me. 
_ Minha filha, se não quiser, não é obrigada a casar.
 Casei-me, e fiz questão que ele me acompanhasse até ao altar.
Diante disso tudo, dessas saudosas lembranças, só resta-me completar com um pensamento de Flaubert:
" Alguns detalhes se desvanecem, mas a saudade permanece".


Maria Helena
30 de janeiro de 2013




Um comentário:

  1. Lindo o texto. A saudade tem seus devaneios, mas nos faz amar mais, desejar mais. Cada lembrança, cada memória, nos faz pensar como valeu a pena, tudo o que vivemos.

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