Feriado prolongado, lá vão Cecília e o marido visitar uma cidade histórica. E como todas cidades históricas tem uma igreja em cada canto, Cecília resolve convidar a sua mãe, que é uma pessoa muito religiosa. Quem sabe assim, ela distraia-se um pouco. Só vive reclamando da solidão, que os filhos não se importam com ela, e haja reclamação.
Queriam ir sós, mas Cecília vendo o desejo de sua mãe, não pensa duas vezes: "mamãe vai conosco"! diz a Fernando, seu marido.
Acontece que chovia muito, a cidade ficava entre serras e devido a cerração quase não se enxergava um palmo diante do nariz.
O medo começou a tomar conta da velha senhora. Nervosa e ansiosa, resolve comer algo para ver se aliviava a tensão.
Pede a Fernando que lhe dê uma pera. Ele prontamente pega a fruta e entrega a dona Júlia, e avisa:
_ Cuidado, está muito dura, pode quebrar- lhe o dente!
Dito e feito. Na primeira mordida, ela sente que a metade do seu dente ficara agarrado na pera. Grita:
_ Quebrei meu dente!
Cecília não sabia se prestava a atenção na estrada ou na mãe. Fernando ria, enquanto dona Júlia se lamentava: "como vou chegar à pousada sem o dente da frente, como vou sorrir e cumprimentar as pessoas?"
_ Para de rir, Fernando! Procure um chiclete na bolsa e dê a mamãe.
Fernando revira a bolsa e encontra só um chiclete. Só que o carro trepidava tanto, e o único chiclete cai no fundo do carro. Felizmente, conseguem achar o bendito chiclete, que a senhora masca até acabar o açúcar e cola o dente. Ficou meio bambo, mas dava pra disfarçar.
Chegaram a pousada, à noitinha. A primeira coisa que dona Júlia fez foi perguntar para a recepcionista onde tinha uma farmácia de plantão. Quem sabe encontraria um pó milagroso, deste que anunciam na televisão, para colar dentadura. "Se cola dentadura, deve colar dente," pensa. Tudo isso com a mão na boca para não verem que o seu dente estava cheio de chiclete.
Ela informou onde ficava a tal farmácia. E lá se foi dona Júlia.
Sobe ladeira, desce ladeira, escorregava, pois chovia muito. Finalmente avistou a tal farmácia. Já estava sem fôlego.
_ Ainda bem que é uma mulher! falou para a atendente.
_ Será que tem um pó para colar meu dente?
Comprou o tal pó e voltou toda contente para a pousada.
Dona Júlia não sabia que o pó virava uma meleca e grudava a boca toda. E foram quatro dias, colando dente de uma em uma hora. Não via a hora de chegar em casa e procurar o seu dentista.
Enquanto isso, sofreu. Não podia comer direito, pois o dente caía, não podia tirar fotos sorrindo, porque o dente ficou maior.
Que passeio frustante! Pretendia divertir-se tanto, entretanto passou o tempo todo colando dente.
Quando chegou e procurou o dentista, ainda ouviu uma gracinha dele:
_ Aposto que era pera nacional, se fosse importada, não aconteceria isso!
Adorei a crônica!
ResponderExcluirA história até parece real!
Parabéns pela criatividade e pela seleção vocabular!
Abraços,
Fernanda Laia.
Muito Boa ! Depois dessa Dona Julia merece um impante !
ResponderExcluirPensei "o dente" como metáfora para questionar o quanto a sociedade ocidental está refém do "culto ao corpo". Perdemos muito tempo preocupados com a nossa aparência e deixamos de aproveitar momentos que poderiam, caso não fôssemos reféns,ser de contemplação e sabedoria diante do novo. Em uma outra sociedade(quem sabe?) pautada por outros valores menos materialistas, a perda de um dente seria um mero detalhe. Parabéns pela crônica e obrigado por mais esse momento de reflexão! Do leitor assíduo, Alex Lamonica.
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